Manchete Paulista — O Mensageiro do Sudoeste
Exclusivo

De Itararé (SP) para o front: aos 28 anos, jovem vive a realidade da guerra na Ucrânia

Gabriel Levighi deixou o interior paulista para integrar a estrutura militar ucraniana; em entrevista ao Manchete Paulista, o itarareense revela como a experiência transformou sua vida e fala sobre as incertezas que enfrenta longe da família.

Por Redação
26 de outubro de 2026, 14h43 · Há 3 dias
Gabriel Levighi, de 28 anos, decidiu viajar em julho de 2026, deixando para trás a família, os amigos e a rotina que conhecia no Brasil. Foto: Acervo pessoal
Ver mais anúncios Espaço reservado para anúncio

Mais de 11 mil quilômetros separam Itararé, no interior de São Paulo, da Ucrânia, país que há mais de quatro anos enfrenta uma guerra contra a Rússia. Foi para esse cenário que Gabriel Levighi, de 28 anos, decidiu viajar em julho de 2026, deixando para trás a família, os amigos e a rotina que conhecia no Brasil.

Sem experiência militar profissional, o itarareense chegou ao país por decisão própria, movido pelo desejo de viver algo diferente e participar de uma causa que considerava maior do que ele. A escolha, no entanto, o colocou diante de uma realidade que nenhuma preparação anterior seria capaz de reproduzir completamente.

Em entrevista exclusiva ao Jornal Manchete Paulista, Gabriel compartilhou os desafios enfrentados desde sua chegada, a convivência com os riscos da guerra e as dificuldades que hoje tornam seu futuro incerto.

“Eu sabia que não seria fácil. A guerra, os riscos e a distância da família são coisas que você não consegue compreender completamente antes de estar aqui. Mas decidi seguir esse caminho e assumir as consequências da minha escolha”, contou.

Do interior paulista à rotina militar

Ao desembarcar na Ucrânia, Gabriel precisou começar praticamente do zero. Além das diferenças culturais e da barreira do idioma, passou por treinamento para se adaptar às exigências do serviço militar.

Mas foi fora desse ambiente que encontrou uma das imagens mais marcantes de sua chegada: a tentativa dos ucranianos de preservar alguma normalidade em meio ao conflito. Mesmo diante da ameaça constante de ataques, escolas continuam funcionando, estabelecimentos comerciais abrem suas portas e famílias procuram manter seus hábitos.

Essa convivência entre a rotina civil e os perigos da guerra mostrou ao brasileiro uma realidade que vai muito além das imagens de destruição normalmente exibidas nos noticiários.

Nos meses seguintes, a experiência também provocou mudanças na maneira como Gabriel passou a enxergar a própria existência. A insegurança deixou de ser uma possibilidade distante e passou a fazer parte de seu cotidiano.

“Você passa a entender que não existe garantia de que amanhã será igual a hoje. Um momento você está conversando com alguém, fazendo planos, e no outro pode estar tentando sobreviver.”

O relato revela uma dimensão frequentemente esquecida quando o assunto são conflitos armados: a de quem precisa conviver diariamente com o medo e com a possibilidade de perder pessoas próximas.

Uma guerra sem previsão de terminar

Quando Gabriel chegou à Ucrânia, o conflito já havia ultrapassado quatro anos. A invasão russa em larga escala, iniciada em 24 de fevereiro de 2022, deu continuidade a uma disputa que remonta a 2014 e provocou uma das maiores crises humanitárias da Europa nas últimas décadas.

Mesmo com sucessivas tentativas diplomáticas, os enfrentamentos continuam causando vítimas e comprometendo a infraestrutura do país.

De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), pelo menos 2.570 civis morreram e outros 15.211 ficaram feridos na Ucrânia entre janeiro e setembro de 2026. Os números representam apenas as vítimas que puderam ser verificadas pela organização.

Além das mortes, os ataques à infraestrutura energética se tornaram uma preocupação crescente com a aproximação do inverno europeu. A destruição de instalações de geração e distribuição de energia ameaça o fornecimento de eletricidade e aquecimento à população.

No campo diplomático, uma nova rodada de negociações envolvendo representantes ucranianos, russos e norte-americanos estava sendo articulada para novembro, mas ainda sem garantias de um acordo capaz de encerrar os combates.

É nesse cenário que Gabriel enfrenta não apenas as dificuldades relacionadas à guerra, mas também problemas envolvendo sua própria permanência na estrutura militar.

Além das diferenças culturais e da barreira do idioma, passou por treinamento para se adaptar às exigências do serviço militar. Foto: Acervo pessoal

A distância de casa e um futuro indefinido

Em Itararé, familiares e amigos acompanham sua trajetória a milhares de quilômetros de distância. Para quem ficou no Brasil, as notícias de novos ataques representam uma preocupação constante.

Gabriel reconhece que nem sempre consegue transmitir às pessoas próximas tudo o que acontece ao seu redor. A distância e as circunstâncias em que se encontra tornam a comunicação ainda mais difícil.

Há também uma saudade que não se resume aos grandes momentos em família. A comida brasileira, as conversas com os amigos e a liberdade de realizar atividades cotidianas sem pensar nos riscos de um conflito passaram a representar muito mais do que simples lembranças.

“Depois de tudo o que vivi, passei a valorizar muito mais as coisas simples: estar com a família, conversar com os amigos, ter saúde e poder descansar em segurança.”

Apesar de considerar a possibilidade de retornar ao Brasil, o jovem ainda não consegue estabelecer uma data. Segundo ele, existem pendências contratuais, militares e burocráticas que precisam ser resolvidas antes de qualquer decisão.

Gabriel não detalhou quais são esses problemas, mas afirmou que sua prioridade atualmente é encontrar uma solução adequada para sua situação.

“Não descarto a possibilidade de voltar, mas preciso primeiro resolver minha situação aqui.”

A esperança de um reencontro

Embora esteja distante de Itararé há alguns meses, Gabriel ainda mantém na cidade seu principal vínculo afetivo. É para lá que pretende voltar quando as circunstâncias permitirem, levando consigo experiências que mudaram sua percepção sobre a vida.

Ao longo da entrevista, o jovem demonstrou que a convivência com a guerra também alterou seu entendimento sobre coragem. Para ele, reconhecer o medo, o sofrimento e as incertezas não diminui ninguém. Pelo contrário, faz parte de compreender a dimensão humana de um conflito.

Antes de encerrar a conversa, Gabriel deixou uma mensagem de agradecimento aos itarareenses que acompanham sua história e torcem por sua segurança.

“A guerra é uma realidade muito mais difícil do que muitas pessoas imaginam. Por trás de cada uniforme existe uma pessoa, uma família, uma história e sonhos que continuam existindo, mesmo em meio ao conflito.”

Para quem deixou o interior paulista em busca de uma experiência completamente diferente, o futuro permanece indefinido. Mas, entre as decisões que ainda precisa tomar e as dificuldades que enfrenta na Ucrânia, Gabriel conserva um desejo que atravessa a distância entre os dois países.

“Espero que um dia eu possa voltar para Itararé, reencontrar todos vocês e contar essa história pessoalmente, em um momento de paz e segurança.”

Foto: Acervo pessoal