Mais de 11 mil quilômetros separam Itararé, no interior de São Paulo, da Ucrânia, país que há mais de quatro anos enfrenta uma guerra contra a Rússia. Foi para esse cenário que Gabriel Levighi, de 28 anos, decidiu viajar em julho de 2026, deixando para trás a família, os amigos e a rotina que conhecia no Brasil.
Sem experiência militar profissional, o itarareense chegou ao país por decisão própria, movido pelo desejo de viver algo diferente e participar de uma causa que considerava maior do que ele. A escolha, no entanto, o colocou diante de uma realidade que nenhuma preparação anterior seria capaz de reproduzir completamente.
Em entrevista exclusiva ao Jornal Manchete Paulista, Gabriel compartilhou os desafios enfrentados desde sua chegada, a convivência com os riscos da guerra e as dificuldades que hoje tornam seu futuro incerto.
“Eu sabia que não seria fácil. A guerra, os riscos e a distância da família são coisas que você não consegue compreender completamente antes de estar aqui. Mas decidi seguir esse caminho e assumir as consequências da minha escolha”, contou.
Do interior paulista à rotina militar
Ao desembarcar na Ucrânia, Gabriel precisou começar praticamente do zero. Além das diferenças culturais e da barreira do idioma, passou por treinamento para se adaptar às exigências do serviço militar.
Mas foi fora desse ambiente que encontrou uma das imagens mais marcantes de sua chegada: a tentativa dos ucranianos de preservar alguma normalidade em meio ao conflito. Mesmo diante da ameaça constante de ataques, escolas continuam funcionando, estabelecimentos comerciais abrem suas portas e famílias procuram manter seus hábitos.
Essa convivência entre a rotina civil e os perigos da guerra mostrou ao brasileiro uma realidade que vai muito além das imagens de destruição normalmente exibidas nos noticiários.
Nos meses seguintes, a experiência também provocou mudanças na maneira como Gabriel passou a enxergar a própria existência. A insegurança deixou de ser uma possibilidade distante e passou a fazer parte de seu cotidiano.
“Você passa a entender que não existe garantia de que amanhã será igual a hoje. Um momento você está conversando com alguém, fazendo planos, e no outro pode estar tentando sobreviver.”
O relato revela uma dimensão frequentemente esquecida quando o assunto são conflitos armados: a de quem precisa conviver diariamente com o medo e com a possibilidade de perder pessoas próximas.
Uma guerra sem previsão de terminar
Quando Gabriel chegou à Ucrânia, o conflito já havia ultrapassado quatro anos. A invasão russa em larga escala, iniciada em 24 de fevereiro de 2022, deu continuidade a uma disputa que remonta a 2014 e provocou uma das maiores crises humanitárias da Europa nas últimas décadas.
Mesmo com sucessivas tentativas diplomáticas, os enfrentamentos continuam causando vítimas e comprometendo a infraestrutura do país.
De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), pelo menos 2.570 civis morreram e outros 15.211 ficaram feridos na Ucrânia entre janeiro e setembro de 2026. Os números representam apenas as vítimas que puderam ser verificadas pela organização.
Além das mortes, os ataques à infraestrutura energética se tornaram uma preocupação crescente com a aproximação do inverno europeu. A destruição de instalações de geração e distribuição de energia ameaça o fornecimento de eletricidade e aquecimento à população.
No campo diplomático, uma nova rodada de negociações envolvendo representantes ucranianos, russos e norte-americanos estava sendo articulada para novembro, mas ainda sem garantias de um acordo capaz de encerrar os combates.
É nesse cenário que Gabriel enfrenta não apenas as dificuldades relacionadas à guerra, mas também problemas envolvendo sua própria permanência na estrutura militar.

A distância de casa e um futuro indefinido
Em Itararé, familiares e amigos acompanham sua trajetória a milhares de quilômetros de distância. Para quem ficou no Brasil, as notícias de novos ataques representam uma preocupação constante.
Gabriel reconhece que nem sempre consegue transmitir às pessoas próximas tudo o que acontece ao seu redor. A distância e as circunstâncias em que se encontra tornam a comunicação ainda mais difícil.
Há também uma saudade que não se resume aos grandes momentos em família. A comida brasileira, as conversas com os amigos e a liberdade de realizar atividades cotidianas sem pensar nos riscos de um conflito passaram a representar muito mais do que simples lembranças.
“Depois de tudo o que vivi, passei a valorizar muito mais as coisas simples: estar com a família, conversar com os amigos, ter saúde e poder descansar em segurança.”
Apesar de considerar a possibilidade de retornar ao Brasil, o jovem ainda não consegue estabelecer uma data. Segundo ele, existem pendências contratuais, militares e burocráticas que precisam ser resolvidas antes de qualquer decisão.
Gabriel não detalhou quais são esses problemas, mas afirmou que sua prioridade atualmente é encontrar uma solução adequada para sua situação.
“Não descarto a possibilidade de voltar, mas preciso primeiro resolver minha situação aqui.”
A esperança de um reencontro
Embora esteja distante de Itararé há alguns meses, Gabriel ainda mantém na cidade seu principal vínculo afetivo. É para lá que pretende voltar quando as circunstâncias permitirem, levando consigo experiências que mudaram sua percepção sobre a vida.
Ao longo da entrevista, o jovem demonstrou que a convivência com a guerra também alterou seu entendimento sobre coragem. Para ele, reconhecer o medo, o sofrimento e as incertezas não diminui ninguém. Pelo contrário, faz parte de compreender a dimensão humana de um conflito.
Antes de encerrar a conversa, Gabriel deixou uma mensagem de agradecimento aos itarareenses que acompanham sua história e torcem por sua segurança.
“A guerra é uma realidade muito mais difícil do que muitas pessoas imaginam. Por trás de cada uniforme existe uma pessoa, uma família, uma história e sonhos que continuam existindo, mesmo em meio ao conflito.”
Para quem deixou o interior paulista em busca de uma experiência completamente diferente, o futuro permanece indefinido. Mas, entre as decisões que ainda precisa tomar e as dificuldades que enfrenta na Ucrânia, Gabriel conserva um desejo que atravessa a distância entre os dois países.
“Espero que um dia eu possa voltar para Itararé, reencontrar todos vocês e contar essa história pessoalmente, em um momento de paz e segurança.”
